VIOLÊNCIA DE GÊNERO NA UNIVERSIDADE: POR QUE MULHERES AINDA ENFRENTAM MAIS OBSTÁCULOS NA VIDA ACADÊMICA?
Mesmo sendo maioria na formação científica, mulheres lidam com assédio, insegurança e barreiras estruturais para permanecer e avançar na academia
Stéfanie Spezamiglio aprendeu, com o tempo, a medir o espaço antes de ocupar a palavra. Na universidade, onde deveria encontrar liberdade para pensar e ensinar, encontrou também interrupções, olhares atravessados e uma resistência difícil de nomear, mas fácil de sentir. Ainda como aluna, percebeu que seus questionamentos teóricos vinham acompanhados de desconfiança: era “dramática”, “indisciplinada”, “difícil”. Adjetivos que não descreviam seu desempenho, mas delimitavam o lugar que esperavam que ela ocupasse: o de aluna submissa.
Anos depois, já professora, a cena se repetiria sob novas formas. Em sala, sua voz era constantemente sobreposta por vozes masculinas, que se elevavam em tom para impor uma autoridade maior do que a da docente. Para continuar, precisou endurecer. Impor-se deixou de ser escolha pedagógica e passou a ser estratégia de sobrevivência na universidade.
Da sala de aula ao medo: quando ensinar se torna um risco
Estudiosa do feminismo, Stéfanie logo percebeu que estava sofrendo violência de gênero e, em conversas com outras professoras, tomou conhecimento de que elas também eram hostilizadas em sala de aula. Por outro lado, e sem surpresa para ela, seu companheiro, que lecionava na mesma faculdade, mesmo ao expressar posicionamentos com os quais os alunos discordavam, jamais teve sua fala interrompida por vozes mais altas, tampouco sofreu ataques por exercer sua liberdade de ensino.
Em um determinado momento, em meio a um cenário de polarização política, o conflito ultrapassou o campo das ideias. Ao abordar temas ligados a direitos humanos, Stéfanie tornou-se alvo de confrontos cada vez mais agressivos.
Até que veio a ameaça de morte, feita por um aluno que tinha acesso a arma de fogo por ser policial. O medo ganhou corpo, rotina e consequência: passou a precisar de escolta da segurança privada dentro da instituição. A sala de aula, que antes representava vocação, tornou-se risco.
Foi quando decidiu sair — da faculdade, do estado e da docência presencial. Não por falta de desejo, mas por falta de proteção.
Mulheres na ciência: maioria nos números, minoria no reconhecimento
A história de Stéfanie se insere em um cenário que, à primeira vista, indica avanço, mas revela desigualdades persistentes.
57% das pessoas com pós-graduação no Brasil são mulheres, segundo dados do governo federal (2026)
https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/02/mulheres-sao-maioria-na-formacao-cientifica-brasileira-e-somam-57-das-pessoas-com-pos-graduacao
49% da produção científica brasileira foi feita por mulheres entre os anos de 2002 e 2022 – o que representou aumento de 11% em comparação com a série anterior, de acordo relatório da agência Bori em 2024
https://abori.com.br/genero/mulheres-na-ciencia-participacao-aumenta-em-20-anos/
O Brasil ocupa o 3º lugar em participação feminina na ciência, atrás apenas de Argentina e Portugal, ainda de acordo com o mesmo estudo
https://abori.com.br/genero/mulheres-na-ciencia-participacao-aumenta-em-20-anos/
Apesar disso, os dados mostram uma contradição: estar presente não significa ter poder, visibilidade ou permanência garantida.
O “efeito tesoura”: por que as mulheres desaparecem ao longo da carreira?
Ainda assim, essa presença não se traduz em poder ou reconhecimento proporcional. O mesmo estudo aponta que, ao longo das últimas décadas, enquanto a participação feminina cresceu entre pesquisadoras mais jovens, houve diminuição entre as mais experientes.
Entre 2018 e 2022:
Mulheres com até 5 anos de carreira participaram de 51% das publicações científicas
Já entre aquelas com mais de 21 anos de carreira, esse número cai para 36%
Esse fenômeno indica a presença de obstáculos estruturais que limitam a permanência e a ascensão feminina na academia.
Violência de gênero no cotidiano universitário: o que não aparece nas estatísticas
Esse descompasso ajuda a compreender por que trajetórias como a de Stéfanie não são isoladas. A análise da psicóloga Lívia Higino ilumina os bastidores desses números ao revelar como a desigualdade se constrói no cotidiano.
Segundo ela, a experiência acadêmica feminina é atravessada por uma sensação constante de vigilância:
O simples trajeto até a universidade exige planejamento e cautela
Há preocupação com iluminação, circulação e segurança
Nem mesmo o campus é percebido como totalmente seguro
A insegurança não é episódica — é estrutural.
A pressão invisível: aparência, comportamento e validação
Além da dimensão física, há uma sobrecarga simbólica que impacta diretamente a vida acadêmica das mulheres.
A psicóloga Lívia Higino destaca que a exigência estética funciona como um critério implícito de validação profissional. Para serem levadas a sério, muitas mulheres sentem que precisam:
Investir tempo e dinheiro em aparência
Manter uma imagem “adequada”
Evitar chamar atenção “demais”
Isso cria um paradoxo constante:
Se seguem o padrão → podem sofrer assédio
Se não seguem → têm sua competência questionada
Diferente dos homens, cuja autoridade é frequentemente presumida, mulheres precisam reafirmá-la o tempo todo.
Impactos emocionais: o custo de permanecer na academia
Os efeitos desse cenário são profundos e cumulativos. De acordo com a psicóloga, a exposição contínua a essas pressões pode gerar:
Insegurança
Ansiedade
Retraimento profissional
Redução da participação acadêmica
Em muitos casos, isso se traduz em silenciamento ou afastamento — não por falta de capacidade, mas por exaustão diante de um ambiente hostil.
É nesse ponto que os dados e as histórias se encontram. A sub-representação feminina nos níveis mais altos da carreira acadêmica não é fruto de escolhas individuais isoladas, mas de um sistema que, direta ou indiretamente, empurra essas mulheres para fora.
O que precisa mudar nas universidades?
Para Lívia, enfrentar esse cenário exige mais do que reconhecer o problema: é necessário agir em múltiplas frentes.
Medidas institucionais
Políticas efetivas contra assédio
Segurança nos campi
Canais de denúncia acessíveis
Ações de acolhimento
Grupos de apoio entre mulheres
Espaços de escuta psicológica
Incentivo ao fortalecimento coletivo
Transformação cultural
Combate ao machismo estrutural
Valorização da diversidade
Promoção da equidade de gênero
Permanecer é resistir
Enquanto mudanças estruturais não se consolidam, histórias como a de Stéfanie seguem evidenciando uma realidade persistente: para muitas mulheres, permanecer na universidade ainda é, antes de tudo, um ato de resistência.
Como denunciar violência de gênero
Se você sofreu ou presenciou violência, existem canais oficiais de apoio:
Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) – gratuito e 24h
Ligue 190 (em casos de emergência)
Denúncia online: https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/denuncie-violencia-contra-a-mulher
A denúncia pode ser anônima e é fundamental para interromper ciclos de violência.
Continue acompanhando
Quer se aprofundar no tema?
Violência de gênero na universidade
Mulheres na ciência
Desigualdade no ensino superior
Compartilhe esta reportagem e ajude a ampliar o debate.
Vídeo publicado no YouTube: https://youtu.be/cXzJxG_oPOo
Título do vídeo: Mulheres no Campus: como a desigualdade de gênero afeta segurança, aparência e carreira acadêmica
Subtítulo do vídeo: A psicóloga Lívia Higino analisa como a desigualdade de gênero impacta o acesso, a permanência e a experiência de mulheres no ensino superior
Descrição do vídeo: A desigualdade de gênero na universidade vai além das estatísticas e se manifesta no cotidiano das estudantes. Nesta entrevista, a psicóloga Lívia Higino analisa como mulheres vivenciam o ambiente acadêmico de forma diferente dos homens, enfrentando insegurança no trajeto até a faculdade, pressão estética, vigilância constante e falta de estrutura adequada nos campi. Enquanto homens, em geral, não precisam considerar fatores como iluminação, risco ou aparência para circular na universidade, mulheres precisam planejar seus deslocamentos e lidar com exigências simbólicas que impactam diretamente sua trajetória acadêmica. O conteúdo também discute os efeitos dessas desigualdades na saúde mental, no tempo disponível, nos custos pessoais e no reconhecimento intelectual das estudantes. Além de expor o problema, a análise aponta caminhos possíveis para enfrentamento, como políticas institucionais de segurança, combate ao assédio e fortalecimento de redes de apoio entre mulheres no ambiente universitário. Se você se interessa por temas como desigualdade de gênero, mulheres na universidade, saúde mental e educação, este conteúdo amplia o debate a partir de uma perspectiva jornalística.
Comentários