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ASSÉDIO, SILÊNCIO E APAGAMENTO MARCAM TRAJETÓRIA DE MULHERES NA ACADEMIA

Foto do escritor: mulheresnocampus
mulheresnocampus
13 de mai.
3 min de leitura

Relatos de professoras e pesquisadoras revelam assédio moral, roubo de autoria, perseguição institucional e dificuldades enfrentadas por mulheres na carreira acadêmica.

A violência de gênero na academia nem sempre grita. Às vezes, ela aparece em um nome omitido em um artigo científico, em uma coordenadora que pede silêncio diante de uma agressão ou em uma denúncia que nunca é feita por medo de represálias. Dentro das universidades brasileiras, onde o pensamento crítico deveria abrir espaço para igualdade, muitas mulheres relatam viver exatamente o contrário: ambientes hostis, hierarquizados e marcados por disputas de poder.

A professora universitária C.A., de 37 anos, que preferiu não se identificar para evitar mais represálias, aprendeu isso aos poucos. Formada em Direito pela Universidade de São Paulo, hoje finalizando o doutorado, ela afirma que só passou a perceber as violências de gênero depois de ingressar mais profundamente na carreira acadêmica.

O apagamento intelectual das mulheres na academia

Durante o doutorado, C.A. compartilhou com um colega um projeto de pesquisa sobre mulheres sáficas — tema ligado às vivências de mulheres lésbicas e bissexuais. Meses depois, viu o assunto reaparecer em uma publicação assinada por três homens que nunca haviam pesquisado gênero ou sexualidade.

“Ele se apropriou de um tema que discutiu comigo num momento em que achei que podia confiar”, relata.

A situação se repetiu em outro projeto acadêmico sobre dignidade menstrual. Segundo ela, um colega submeteu sozinho um resumo para congresso utilizando experiências construídas coletivamente por uma equipe majoritariamente feminina.

“Os homens agem como se tivessem direito sobre tudo — inclusive sobre as ideias e o trabalho das mulheres.”

Segundo a socióloga e pesquisadora Jéssica de Cássia Rossi, o apagamento intelectual e o roubo de autoria são formas recorrentes de violência simbólica contra mulheres pesquisadoras.

“O apagamento intelectual acontece quando uma mulher contribui com ideias e pesquisas, mas não recebe reconhecimento. Já o roubo de autoria ocorre quando sua produção é apropriada por outra pessoa, geralmente alguém em posição hierárquica superior”, explica.

Assédio, medo e silêncio institucional

A violência, porém, não se limita à autoria.

Gabrielle Andrade da Silva, 34 anos, advogada, socióloga e ex-professora universitária, abandonou a carreira acadêmica após anos convivendo com assédio, perseguições e violência institucional.

Durante a seleção para o mestrado, relata ter sofrido assédio de um entrevistador. Após recusar um convite para sair, ouviu que bastava “uma palavra” dele para destruir sua trajetória acadêmica.

“Eu sabia que denunciar provavelmente só me prejudicaria.”

Anos depois, já como professora, Gabrielle passou a ser perseguida por um aluno que utilizava tornozeleira eletrônica e dizia integrar uma facção criminosa. Segundo ela, o estudante afirmava que ela “ficaria com ele de qualquer forma”.

Mesmo após episódios de perseguição e ameaças, a coordenação insistiu para que ela aplicasse uma prova sozinha para o aluno, em uma sala fechada.

“Eles sabiam o que estava acontecendo e, ainda assim, queriam que eu ficasse sozinha com ele.”

Rivalidade feminina ou disputa por espaço?

Parte das hostilizações sofridas por Gabrielle veio de outras mulheres em posições de chefia.

“Existe uma rivalidade feminina muito forte dentro da academia”, afirma.

Para Jéssica Rossi, porém, essa rivalidade não pode ser entendida como característica natural entre mulheres.

“Essa disputa costuma ser resultado de estruturas que incentivam competição desigual por poucos espaços de poder e reconhecimento.”

O funil acadêmico e a desigualdade de gênero na ciência

Os relatos encontram eco nos dados. Segundo dados divulgados pelo Governo federal (https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/02/mulheres-sao-maioria-na-formacao-cientifica-brasileira-e-somam-57-das-pessoas-com-pos-graduacao), mulheres representam cerca de 57% das pessoas na pós-graduação brasileira e são maioria nas bolsas de mestrado e doutorado. Ainda assim, ocupam apenas 35,5% das bolsas de produtividade em pesquisa (https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/noticias/2025/02/mulheres-ja-sao-maioria-nas-bolsas-de-mestrado-e-doutorado-mas-ocupam-apenas-35-5-das-bolsas-de-produtividade#:~:text=Mulheres%20j%C3%A1%20s%C3%A3o%20maioria%20nas,da%20Ci%C3%AAncia%2C%20Tecnologia%20e%20Inova%C3%A7%C3%A3o).

Embora produzam aproximadamente 49% da ciência brasileira, sua presença diminui nos espaços de liderança e influência acadêmica.

A contradição revela o chamado “funil acadêmico”: as mulheres entram na universidade, mas enfrentam mais dificuldades para permanecer e ascender na carreira.

Quando permanecer significa sobreviver

Depois dos episódios de apagamento intelectual, C.A. passou a desconfiar constantemente dos colegas homens. Hoje, descreve a universidade como um ambiente hostil.

Gabrielle, por sua vez, decidiu abandonar a docência — justamente a profissão que sonhava exercer desde a infância.

“Eu amo ensinar. Mas o ambiente acadêmico se tornou insalubre para pessoas que não aceitam ocupar um lugar de submissão.”

Enquanto as universidades celebram números crescentes de participação feminina, histórias como as de C.A. e Gabrielle mostram que o desafio não é apenas garantir o acesso das mulheres à academia, mas assegurar que elas consigam permanecer nela sem precisar sobreviver diariamente às violências que insistem em ser tratadas como normais.

Como denunciar violência de gênero

Se você sofreu ou presenciou violência, existem canais oficiais de apoio:

Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) – gratuito e 24h

Ligue 190 (em casos de emergência)

Denúncia online: https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/denuncie-violencia-contra-a-mulher

A denúncia pode ser anônima e é fundamental para interromper ciclos de violência.

 
 
 

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